terça-feira, 9 de outubro de 2012

Mudança serena

Decidi mudar. E inicio esse processo pensando justamente no que deveria ter pensado em todas as outras vezes que pensei em mudar: em mim. Não é egoísmo ou coisa do gênero, é só uma vontade dentro de mim gritando e escancarando que eu real e definitivamente não preciso fazer absolutamente nada para agradar os outros. Como concluí isso? Tudo resultado de uma somatória de episódios que lhe provam que se você não pensar em si, ninguém pensará.
Relaxa, isso aqui não serve como uma declaração de "desumanidade". Eu apenas entendi que a verdadeira revolução nasce em nós - no caso, em mim - , e que tentar arrumar qualquer coisa e estabelecer a paz mundial sem a encontrar em mim, de nada adianta.
Sabe, se tem algo que prezo é a lógica. A maioria das coisas tem que fazer sentido. Até tua contradição tem explicação. Ou nela você se faz uma pessoa prestes a evoluir ou só mais um hipócrita mesmo. Mas disso não dá pra correr: tem que fazer sentido. E se você não sabe o que (não) quer para si, tampouco saberá o que (não) quer para o mundo.
Não pretendo com isso deixar de ser sentimental, deixar de militar, de acreditar em pessoas e ideais humanistas. A questão vai mais além, sabe? Eu só quero me conhecer e me arrumar para então me reconhecer e me achar no mundo, e não deixar o mesmo ditar como serei. E até porque, o mundo anda feio, mesquinho e triste. Não quero ter isso como guru.
E é como se um peso saísse de cima de mim. Não sou a responsável pela felicidade da humanidade. E nessa vida louca, se eu conseguir ser feliz pelo menos em 51% do tempo, já será lucro.
Entendo o (atual e meu) sentido da vida assim: fazer o que me faz feliz, sem ser uma escrota que pisa nos outros para isso, mas sem também permitir que pisem em mim.
Te amo. Me amas. Nos amamos, amor.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O Significado do cinza.

"A diferença é que meu abraço é sincero e que eu sorrio com os olhos". Essa frase não saía de sua mente. A menina, garota, criança... o ser humano em questão ainda tão indefeso não conseguia mais suportar tanta hostilidade. Olhava para aquele mundo adulto e via broncas, ódio, briga, desunião e gente má. Não gostava da sensação de gostar de alguém e não poder ter a certeza de que esse gostar por gostar era o suficiente. Estava triste, farta, desiludida.
Talvez ela tivesse deixado em algum momento essa inocência partir-se, de modo a desconfiar agora. De modo a não esperar mais.
Ela sentia falta dos momentos e sentimentos dos quais ela não conseguia encontrar palavras para descrever, dos quais o ar faltava. Pegava o seu caderno como se fosse a chave para conduzi-la para um refúgio seguro e aconchegante, onde lá pudesse colar cada caco que lhe faltava.
Ela olhou a TV, a janela. Dirigiu-se até a sala, ascendeu seu cigarro e observou o cotidiano na rua, na esperança de que a espontaneidade lhe desse alguma pista. Desejo de fuga, desconfiança, descrença, ceticismo em guerra forte com a porra da sua inocência e benevolência. Afinal, nem o que sentia ela era capaz de entender ou explicar. Sabia que estava farta disso, daquilo, de tudo e todos. Tivera dias ruins? Sim. Mas esse não era  o ponto, pois se só isso fosse, teria passado com o dia maravilhoso que tivera.
Tragou o cigarro, soltou a fumaça e observou seus dedos. Eram finos e quase tão frágeis como seus sentimentos e tão desastrados como seus pés.
Estremeceu de frio. O céu falara. O cinza era o renascimento, o início da reconstrução, ao mesmo tempo em que traduzia a solidão daquele instante. Eles estão lá, ela cá. Você cá e lá ao mesmo tempo.
Aquilo incomodava, embora não chegasse a doer.
Ela teve o vislumbre de uma criança de cabelos dourados jogando uma bola vermelha para o alto, como se ali residisse a felicidade. Até certo ponto, a inocência se preserva com a ignorância. Então ali ela entendera que tivera incontáveis momentos felizes como o daquela menina, que talvez simplesmente devesse trabalhar para reconstruir a inocência e pureza alheia. Quem sabe assim ela não se reconstruísse também, né?
O vinho lhe chamou. Ela sabia o que isso significava. deitou-se nele enquanto também se embriagava com a bebida. E ali adormeceu na espera do Sol mais reluzente de sua vida.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Idiotice é não crer em nada.

Sabe, a frase do título desse post foi-me dita por um alguém muito querido. E tal frase me fez pensar em inúmeras situações que tenho vivido ultimamente, desde gente me dizendo pra "fazer um curso que dê futuro e passar num concurso" até o clássico "se você for boa e idealista sempre, não conseguirá nada na política. Não não política 'real', ao menos".
Eu fico pensando (e por consequência, me deprimindo) na mentalidade medíocre dos céticos acerca da capacidade do ser humano de ser bom. Ouvi de tantas pessoas tantas vezes que "somos malvados e egoístas" por natureza que fiquei horrorizada. Poxa, a pessoa se conhece, e se tem um pingo de decência e altruímo dentro de si, ela terá a capacidade de dizer que as coisas não estão boas e que é preciso fazer o (im)possível por um mundo melhor, ajudando ao próximo em tudo que está ao nosso alcance.
Não sei se isso é viés de socióloga ou de uma sentimental canceriana, ou se não é viés de nada e apenas minha essência se indignando diante de tanta escrotice, mas o fato é que não dá para ver nosso Brasil com 95% de suas universidades/insitutos federais em greve e ver nossa querida presidentE(não sou estudantA, então pronto. Regra idiota) encomendando jatinhos e tocando as obras da copa a todo o vapor como se nada acontecesse. Não dá pra ver o caos em nossos hospitais, com pessoas se deteriorando e sendo marginalizadas pelo péssimo sistema se saúde que é o SUS (que só assim o é pelo repasse de verbas que entra em sua maioria para o bolso dos parlamentares safados que sempre elegemos) e seguir como se tod@s fossem felizes e bem tratados por nosso Estado.
Tem algo muito errado com o mundo e com as pessoas. E o pior é perceber que o que faz o mundo estar errado são as próprias pessoas, que se anulam ao seguirem o raciocínio egoísta, consumista, elitista, facista e tantos outros "ista" com sentido negativo que nos é imposto desde a hora em que nascemos. O mundo virou um lugar bizarro, onde o decente é o inocente, e o correto é o bobo, onde o bom é o otário.
Mas mesmo com todo esse cenário triste, eu acho que o meu papel como uma cidadã pertencente a uma sociedade é de me indignar e lutar por mudanças. Não é algo fácil, mas é o correto, e o que obviamente (e urgentemente) precisa ser feito. Se esse trabalho não iniciar-se em algum ponto, ele nunca terá um final, e eu realmente não tenho medo de passar a minha vida lutando por um mundo do qual eu não farei parte, mas meus filhos, netos e bisnetos sim. E eles, não só por serem meus (futuros) descendentes, mas sim por estarem na condição de ser humano, tornando-se portanto meu semelhante ao qual eu devo preservar o bem estar, merecem essa luta. E mais do que isso: precisam dela e precisam de alguém que lhes ensine esses valores.
Não quero muito dessa vida. Luxo, dinheiro status... essas coisas podem ser muito sedutoras e gostosas de se viverem, mas eu tenho muito claro em minha mente que "o que se leva dessa vida é a vida que a gente leva". Quero a felicidade, o amor, a amizade e o sorriso franco. Qualquer coisa que fuja muito desse padrão não é vital.
Ainda acredito no poder da solidariedade e da visão política mais bonita que já, que se designa por humanismo. Acredito no potencial do trabalho social e do movimento social. Na capacidade da multidão, quando indignada, derrubar presidentes corruptos e ditadores assassinos da liberdade e da vida. Acredito no poder transformador da sociologia, da filosofia, do estudo da história e da educação como um todo. Acredito que o mundo precise desse texto, ainda que não venha a ser dos melhores. Acredito que N pessoas precisam da minha parte.
E se você acha tudo isso bobagem, perda de tempo, eu reescrevo em negrito o título desse post. Idiotice é não crer em nada.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Amarelo solar

Minhas mãos estão congelando, meu cabelos estão despentados. Os dias têm sido coloridos. Não sei se pelas pessoas ou pela poesia que o inverno trás como algo tão seu, mas de fato, os dias são mais felizes agora.
Uma paz se faz presente em meu coração. Nenhum sintoma daquele velho duelo de "razão x emoção", mas curiosamente não deixei de me emocionar com nada.
Talvez agora, com feridas antigas finalmente cicatrizadas, eu esteja aberta pra vida. Aberta pra um sorriso, um abraço, um papo gostoso regado de café ou vinho, quem sabe um cigarro.
Os dias vêm aquecendo meu coração, despertando um novo sentido, um novo "porquê" de se viver.
E  esse furacão de esperanças chega sem perspectivas, definições.. sem restrições. Só chega repentinamente e domina de forma intensa, fazendo com que eu olhe para o horizonte e sinta que eu possa alcançar o céu. E de fato, eu posso!
Me sinto como as mocinhas inteligentes dos filmes de comédia romântica, quando elas finalmente encontram um caminho a ser trilhado. Não é como se minha vida conseguisse ser clichê como nesses filmes, mas temos um ponto convergente agora. E ele é tão feliz!
O céu de Brasília continua sendo o mais lindo de todos, nas noites frias e nos dias secos. A arquitetura comunista brilhante de Oscar Niemeyer parece prosear comigo calmamente, em cada curva, em cada reta e em toda a sua precisão abstrata.
O tempo tem sido bom e as horas valido a pena. É bom respirar e ser um novo viver. 
Realmente, a vida tem sido boa.


segunda-feira, 28 de maio de 2012

Ouça, por favor. Enxergue mais, e melhor. Sinta o cheiro da podridão humana e perceba que todos nós erramos em algum ponto. Não sei dizer onde, nem o porquê, se quer se foi intencionalmente. Mas aconteceu e assim é. Fechar os olhos para isso é não ver o real.
A verdade é que você é egoísta, que eu sou e todos nós somos. Egoístas quando pensamos em acumular, em ter, em parecer e aparecer.
Sei lá, tudo isso incomoda e deixa infeliz. Começo a compreender quem prefere se alienar e viver pra si, embora ainda condene essa postura. Dizem que sou boba, que o mundo é assim mesmo, feio, triste, mórbido, sórdido e escroto, e que sempre vai ser, que "não serei eu a mudá-lo".
Mas alguém alguma vez disse que quando a gente muda, o mundo muda. E se, sei lá, todo mundo se revoltasse com essa porra? E se todo mundo resolvesse parar tudo e construir junto um mundo mais digno, melhor... mais humano? Não seria lindo? Será que seria o suficiente?
Eu não tenho a resposta de nenhuma dessas perguntas. Mas tenho teorias e suposições. Ainda que as coisas não se resolvessem de vez, talvez elas melhorassem consideravelmente. E talvez isso chegasse na perfeição um dia.
Talvez. Podia ser. Caramba, é isso que me indigna: tanta coisa/gente com potencial pra ser incrível e se deixando levar pelo comodismo, pelo egoísmo e pelo medo da mudança. Eu fico pensando... o que pode ser pior do que esse todo corrompido?
Não digo que a realidade seja fácil de se lidar, e muito menos de mudar. É foda você ver tanta injustiça, canalhice e diante de algumas coisas ser impotente, mas o que tá ao nosso alcance, deve ser mudado, e já.
Eu tô me cansando. Mas em cada cansaço, eu me renovo, pois diante de tantos discursos vazios, se os poucos que ainda creem em um mundo melhor apesar de qualquer tipo de ideologia, pararem de lutar, essa porra nunca vai mudar.
A Ayla que vos escreve pode não estar de bom humor, mas está sendo sincera.
Ah, podia ser tanta coisa a mais... que merda de mundo.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Monólogo atemporal

- Vai garota, coloque novamente tuas dores no bolso e parta.
- Mas eu não deveria dizimá-las?
- Deveria.
- E por que me recomendas fazer justamente o contrário?
- Por que carregas em ti as dores do mundo.
- E o que há de mal nisso?
- Tudo.
- Não entendo.
- O que não entendes?
- O que há de mal em trazer todas as dores do mundo, e se há um mal, o porquê dele ser completo, sem nenhum ponto positivo.
- Você ainda é muito nova.
- E isso não explica muita coisa.
- O que quero dizer é que você ainda é incapaz de entender, de perceber...
- O quê?
- O que há de mal em querer sentir a dor do mundo.
- E além disso, eu sou muito nova para perceber o que também?
- O que é maldade.
- Mas já não é maldade eu sentir toda a dor do mundo? Estou ficando confusa.
- É mal. Não quer dizer que seja maldade.
- O que difere?
- A primeira é ruim pra tu. A segunda é ruim pro todo e é intencional, e o que é mal pra gente dificilmente dá-se por apresentação. Ninguém se apresenta pra sentir dor.
- Não? E os masoquistas?
- Você é danada, hein, garota? Mas, não, é diferente.
- Por que?
- Porque é.
- Isso não responde.
- Mas você é nova, por ora basta.
- Então, recapitulando: você me recomenda dizimar minhas dores, mas também guardá-las no bolso por eu ser incapaz de resolver as mesmas por se tratarem não de dores minhas, mas do mundo, e ainda diz que isso é mal pra mim, pois me machuca, que não escolho isso, e que isso se difere da maldade, da qual eu sou incapaz de perceber por ser muito nova?
- Isso. E você esqueceu da parte da dor não ser voluntária, nem mesmo pra masoquistas.
- E porque não é?
- Masoquistas gostam da dor, de modo que o que procuram quando desejam senti-la não é nada além do prazer puro de sentir dor.
- E eu não me categorizo como masoquista por querer sentir a dor do mundo?
- Não.
- Por que? E não me venha com "porque não"!
- Porque tu sou eu.
- Eu sei. Você sou eu no futuro. E porque não sou, aliás, porque não somos masoquistas?
- Por que não queremos sentir o prazer da dor. Só queremos comportar a dor do mundo para que nosso semelhante não a sinta.
- E o que é ser isso?
- Idealista.
- Como gostamos dos "ista's".
- É um sufixo interessante. Mas assunto pra outra hora.
- Compreendo agora o porque de guardar minha dor.
- Compreende? Sei a resposta por ser você, mas o que você concluiu?
- Que a dor do mundo será sempre minha, e sempre doerá. E que eu querer resolvê-la pode resultar numa incapacidade de senti-la a partir de um ponto.
- Percebe o como isso é complexo?
- Sim. Seria sinônimo de viver sem pensar no próximo. O que significa ter uma vida...
- Só.
- É, como sabe?
- Sou você. Confie que é isso. Não deixe de sentir dor, de sofrer, de chorar e lutar. Faça isso com a maior frequência possível, pois isso talvez signifique mudança.
- Mas mudar dói!
- E dor é bom.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Maturação

Estava morta de sono,
Mas não queria dormir.
Ela sabia que ao desligar as luzes,
Os pensamentos do dia viriam.
E era justamente o que ela não queria.
Aquilo doía de forma intensa
E a consumia.
Antes de dormir,
Não há com o que se ocupar.
A mente se entrega,
E com ela, o coração também.
Sentir era sinônimo de dor naqueles segundos.
Cansada disso,
Iniciou o seu extermínio.
De negatividade, 
Dor, pessimismo
... de sua entrega, sempre franca e verdadeira.
Cultivou mais exigências,
seu senso crítico,
E sua vontade de ser melhor.
Ela virara mulher, na alma
E não perderia mais tempo.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Escreva, e escreva já!

Talvez uma das coisas que mais mensurem o quanto uma pessoa amadurece sejam os seus escritos. Dos da pré-adolescência aos da vida adulta: tudo serve para nos acharmos. Engraçado ler um texto seu que foi escrito há 6 anos e perceber o como as coisas mudaram. Ver que todas as certezas e conceitos que você tinha, não eram bem "tão certos" e você não levou todos eles para a vida toda, como acreditava que seria. Ver o quão mente fechada você era na sua suposta "liberalidade". Ver o quão liberal você é agora, com toda a sua caretice.
Ler meu escritos antigos: tá aí um bom mensurador do que aprendi, do que mudei e talvez do porque seja como sou. É por isso que escrevo. Não espero, com isso, tentar mostrar ao mundo que uma espécie de Shakespeare do século XXI reside em mim, não. Apenas aconselho a escreverem, porque se ler te teletransporta, escrever te dá a chance de planejar o onde vais, com quem, o como e o quando. O escrever é só seu, de modo que, nem que seja nas estrelinhas, traduz os teus desejos, o teu ser em si.
Escrever liberta, traduz e nos alivia. Nos instantes em que o uma caneta percorre um papel, ou com toda a nossa modernidade, os dedos pressionam um teclado, nós somos capazes de desligar-nos do mais incômodo problema. É como ser diretor da nossa própria história, e por segundo, mostrar para nós próprios o que queremos e o porque queremos.
Escrevam para pensarem, para "desestressarem", para se alegrarem e se acharem. Escrevam por escrever! Nem que seja um poema bobo ou um livro elaborado. Só escrevam! 

sexta-feira, 30 de março de 2012

E se a gente não tivesse errado a dose?

Usemos da subjetividade agora, afinal, nada precisa ficar explícito para ser verídico, né?
A verdade é uma só: eles esperam que o outro sinta saudades. Ela espera ele ligar, mandar uma mensagem, dizer que... sente sua falta. E ele? Espera que ela ainda demonstre alguma espécie de interesse. Espera que ela entenda o seu orgulho, que perdoe-o e o aceite assim, apesar de saber que ela também é orgulhosa.
E é isso: o orgulho gera a expectativa que o outro faça algo que não faz devido ao próprio orgulho. As coisas se atrasam e se perdem no tempo assim, mas... eles acreditam ser o melhor.
É engraçado que eles chegaram a fazer muitos planos juntos. Pensaram em estar perto, em namorar, e juntos ficarem por um tempo indeterminado.
Mas não foi possível. Pelo que? Pelo medo mútuo. Medo da entrega, de não durar, de possíveis feridas... medo de ser pouco.
E isso era o que tinham em comum: a vontade de estar perto, pois apesar de serem parecidos, o que os diferenciava era o modo de executar os seus pontos convergentes. Ou seja, tudo.
Ele sentiu dor. Ela chorou. Se desencontraram e só sabe-se-lá-quem conseguirá dizer o que será dos dois, pois eles mesmo são incapazes disso.
Lutam diariamente para não lembrar, mas recusam-se a esquecer. Fingem não ligar, mas observam de longe.
E é isso. Vão crescendo, amadurecendo, envelhecendo. Passando por altos, baixos, poucas e boas. Esperando o dia que não sabem se virá.
Não seria mais coerente e maduro explicitarem o que sentem? Sim, seria. Mas coerência não é mesmo o forte deles. Pelo contrário. A incoerência os tornava atrativos um pro outro.
Mas assim foi, e assim é, e quem sabe assim seja pra sempre.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Reencontro narcisista

Querido Eu,
É bom te ter de volta. É bom ser você de volta. É claro que tu não chegaste com tudo, ocupando todos os espaços deixados ou curando as feridas feitas pelo tempo. Chegaste repentinamente, sim, isso eu reconheço, mas digo e repito: é bom te ter por aqui.
Pela sua ausência (que nada mais significa que uma ausência de mim mesma), eu fiquei sem chão, perdida, enfiando os pés pelas mãos. Mas talvez esse fosse o único modo de viver todas as coisas que me mostrassem o que de fato não quero para mim.
Através dessa sobrevida que levei ao longo desses quase 3 anos, em que tu (eu) estiveste (estive) ausente, percebi o quão vazio e sem sentido as coisas ficam sem uma coisa básica e sem preço: amor.
Quando falo de amor, falo de amor de mãe, de irmão, pai, amigo, alma gêmea... amor e só. Me refiro à capacidade que esse sentimento tão nobre possui de despertar o melhor nas pessoas, como a solidariedade, o companheirismo, a preocupação e doação completa.
Isso, chegamos aonde eu queria. A doação completa (e não recíproca). Sabe, ficaria imensamente feliz se essa fosse a primeira e última vez em que eu tenha passado por isso. Mas, em todo o caso, se não for, prometo, juro pela minha alma e sangue que não me perderei de ti novamente, pois me perder de ti é não ter uma vida real.
Cansei de coisas que nos iludem, nos fazem felizes momentaneamente... que fazem nós todos parecermos e pensarmos ser outra coisa. Cansei de tentar chamar a atenção de outras formas... de ser o que não sou.
É claro que isso não foi com todo mundo ou todo o tempo. Mas mesmo assim, se negar por um segundo que seja pode significar se privar de uma ocasião que mudaria sua vida para sempre. Sei lá, talvez eu seja meio boba ou antiquada por acreditar em predestinação, mas é algo que tem um sentido pra mim, e através dessa catarse toda eu percebi que isso importa: o Eu.
Não tenho que perder meu tempo cultivando coisas, pessoas ou sentimentos que não me façam bem. Não tenho que me martirizar por tudo que deu/dá/dará errado em minha vida. Eu só preciso... parar, respirar um pouco, beber uma água, às vezes chorar e reconhecer minha humanidade. Tentar carregar  mundo nas costas e fingir superar coisas que ainda me incomodam só prolonga o sofrimento... que por natureza é desnecessário, ao contrário da dor.
Numa das minhas música preferidas do Cazuza, "Minha flor, meu bebê", meu ídolo fez um verso que possui uma sabedoria incrível, onde simplesmente é dito"que a dor no fundo esconde uma pontinha de prazer". Antigamente, isso me parecia doentio, algo típico de uma espécie de sádico... mas hoje faz todo o sentido.
Querido eu, através da dor inconsciente e não assumida que senti por tua ausência é que eu pude perceber que eu sou tu e tu não és nada mais além de mim. Que a dor virá novamente, e que eu não tenho que ser forte, e sim humana! Chorar faz parte, se desiludir também, sofrer... e ninguém morre por isso.
Mas, essa foi a primeira vez de tudo. Prometo-lhe que, depois dessa confusão toda, do turbilhão de identidades que passei desde os meus 15 anos, eu não lhe deixarei, nunca mais. No máximo lhe modificarei quando perceber que alguma infantilidade sua me impede de evoluir.
É isso. Bem vindo de volta e se achegue, meu caro.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

L'amour

Amor não é sempre bilateral.
Não é sempre recíproco.
Às vezes nem é verídico.
Não é o tipo de coisa que se encontra em qualquer lugar,
Ou que se cultive em qualquer pessoa.
Não é perfeito e nem tem padrões.
Não é o casamento ou a traição.

É loucura, doença, desespero... abstinência.
É saudade, inconstância, bipolaridade, indecisão fascínio e raiva.
É preocupação, ciúme... eterna insegurança.

Amor é um bom dia num domingo ou um suspiro no meio da aula.
Um fazer planos de casal, só que sozinho,
E mesmo que nada se concretize,
Sentir o coração aquecer só com a ideia.

Chega repentinamente.
Domina, fica, vigora e eterniza.
Mas, às vezes acaba.
Às vezes, é sozinho.
E vai. E volta. E vai. E volta!

Porque amor sempre é assim:
A gente pode colocar em um recipiente
E guardá-lo em um lugar qualquer,
E esquecer que está ali.
Mas, em algum dia de faxina,
Quando achamos fotos, cartas, bilhetes e lembranças,
A gente também o encontra, ainda que sem querer.
Porque, na verdade, ele nunca saiu dali!
Estava lá, o tempo todo, ainda que esquecido...
Ainda que tenha deixado de ser o foco.
E aí vem o choro, saudade, o riso bobo, o chocolate,
O filme água com açúcar
E a velha questão do se é pra ser.
Nunca se sabe.

Porque amor é amor, e fim.
Será sempre amor.
No máximo muda de forma, mas não a essência.
Pode ficar ofuscado por semanas, meses... até anos.
Mas continua vivo.
É irracional, inexplicável, desmedido e transcende.

É a proteção de um abraço,
O coração acelerado de um beijo.
Pele, boca, respiração, poesia, vinho e frio.
É um "eu te amo" surpreendente,
Sem os enfeites clichês de declarações em redes sociais.

É o desespero que bate depois de uma briga,
E a saudade que consome na ausência.
Ah, é também a alegria que domina na presença,
E o riso involuntário causado pelo vislumbre do ser amado.

Amor cria poetas, livros, artistas, músicas e pinturas.
Dá cor à vida e coragem pras loucuras.
Desperta a fé em médicos e faz padres se casarem.
Sem explicação. Sem laudo, sinopse ou poema com definição precisa.
Só é assim: intenso, impreciso e desmedido.
É mais ou menos isso.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Palavras

Preciso de mais palavras. Palavras alegres, tristes, doidas, sãs, perfeitas e caóticas. Palavras que preencham vazios e os expliquem também. Palavras que firam mas que sejam a própria cura.
Palavras; São tão injustiçadas, não? As pessoas dizem que elas são pouco, que o que importa são as ações. Discordo totalmente.
Quem comete essas blasfêmias são os incapazes de se encontrarem num verso específico de uma música qualquer. Quem desacredita no poder das palavras são aqueles que não escrevem, que não leem. E quando eu digo que não fazem nenhuma dessas ações, me refiro mais do que ao papel e caneta, mais que ao livro empoeirado e novo na estante.
Quem não escreve? Pessoas que enxergam o livro da vida como páginas de papel descartáveis, onde qualquer coisinha está bom. Pessoas que se anulam, se adequam, se negam e não vão atrás do que querem. Pessoas que assumem valores deturpados como o certo. Pessoas que se assustam com um bom dia gratuito e se atraem por alguém de carteira cheia.
Quem não lê? Quem não percebe o quão brilhosos são os olhos de qualquer criança, quem não se emociona com uma declaração. Quem não chora de saudade ou se desespera por amor. Quem não se entrega. Pseudo-pessoas, enfim...
Palavras são mais do que singelas letras agrupadas. Elas são as responsáveis por você poder ler, em qualquer idioma, os escritos de gênios que viveram séculos atrás. Também são elas que te proporcionam o vislumbre do quão alienado ficamos por não lê-las.
Palavras são cativantes e instigantes. São a mais nossa perfeita companhia. Se eternizam na escrita e nos traduzem quando as dizemos. Possuem infinitas combinações com outra infinitude de significados. Palavras, para mim pelo menos, são como a melodia de uma música. Confortam, alegram, fantasiam, embelezam.
Dão sentido até pro incompreensível.