sábado, 26 de janeiro de 2013
Sem sentimento forjado
Gostava de diamantes. Todos os dias, ao acordar, colocava-se a caminhar chutando cuidadosamente as pedrinhas que se apresentavam ao longo do caminho que percorria até seu destino cotidiano, na esperança de encontrar um diamante perdido. Em cada chute, observava as pedrinhas, deslocando-se de um lado para o outro, devido ao impulso dado por seus pés. Mas nada. Acostumara-se a observar pedrinhas opacas, sem nada de especial, sem qualquer coisa próxima a um diamante.
Um dia, em mais um de seus chutes, parou seu caminho e reparou em uma pedrinha que se diferenciava das outras. Era transparente e tinha um brilho diferenciado conforme a luz do Sol tocava em sua superfície. Os raios refletiam um brilho que, ao tocar os olhos, causavam incômodo, ao mesmo tempo em que encantavam.
Seu coração acelerara. Teria finalmente encontrado o diamante?
Ao aproximar-se, reparara que a pedra não reluzia como as joias contempladas por Audrey Hepburn em "Breakfast at Tiffany's". Mas mesmo assim, a pedra era bela. Um caco de vidro, singelo, comum, qualquer medíocre... porém bonito. Decidira guardar o caco de vidro para posteriormente fazer um colar para si. Não era um diamante... mas quem sabe pudesse substituí-lo. Quem sabe pudesse transformar-se em um por alguma ação bizarra e inexplicável do universo. Quem sabe um dia aquele vidro valha o mesmo que o diamante, mesmo que sentimentalmente.
Um dia, com o vidro em seu peito, caminhava e chutava o chão, cuidadosamente, até que um pedregulho maior que o normal e uma distração momentânea fizeram-lhe tropeçar. Caíra. Além das dores da queda, sentira um incômodo no peito. Ao virar-se, percebera que o vidro tinha se espatifado e, mais do que isso, lhe cortado.
As lágrimas vieram involuntariamente. E com a mesma efemeridade, encerraram-se. Naquele momento, entendera que de fato, um vidro não é um diamante. E nunca seria, por mais que força que colocasse para que isso ocorresse. Um vidro não é um diamante. Um vidro espatifa-se com o menor trisco. Um diamante não. O vidro cortara a menor pressão, por espatifar-se. O diamante nem trincado teria.
Naquele instante, erguera-se, e colocou-se a caminhar, tranquilamente, sem chutar o chão. Entendera que um dia, o diamante seria simplesmente chutado. Ou não. Mas que não é por isso que deveria deslumbrar-se com qualquer caco de vidro. Afinal, um vidro não era um diamante. Nunca foi, não é e nem nunca será.
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