"A diferença é que meu abraço é sincero e que eu sorrio com os olhos". Essa frase não saía de sua mente. A menina, garota, criança... o ser humano em questão ainda tão indefeso não conseguia mais suportar tanta hostilidade. Olhava para aquele mundo adulto e via broncas, ódio, briga, desunião e gente má. Não gostava da sensação de gostar de alguém e não poder ter a certeza de que esse gostar por gostar era o suficiente. Estava triste, farta, desiludida.
Talvez ela tivesse deixado em algum momento essa inocência partir-se, de modo a desconfiar agora. De modo a não esperar mais.
Ela sentia falta dos momentos e sentimentos dos quais ela não conseguia encontrar palavras para descrever, dos quais o ar faltava. Pegava o seu caderno como se fosse a chave para conduzi-la para um refúgio seguro e aconchegante, onde lá pudesse colar cada caco que lhe faltava.
Ela olhou a TV, a janela. Dirigiu-se até a sala, ascendeu seu cigarro e observou o cotidiano na rua, na esperança de que a espontaneidade lhe desse alguma pista. Desejo de fuga, desconfiança, descrença, ceticismo em guerra forte com a porra da sua inocência e benevolência. Afinal, nem o que sentia ela era capaz de entender ou explicar. Sabia que estava farta disso, daquilo, de tudo e todos. Tivera dias ruins? Sim. Mas esse não era o ponto, pois se só isso fosse, teria passado com o dia maravilhoso que tivera.
Tragou o cigarro, soltou a fumaça e observou seus dedos. Eram finos e quase tão frágeis como seus sentimentos e tão desastrados como seus pés.
Estremeceu de frio. O céu falara. O cinza era o renascimento, o início da reconstrução, ao mesmo tempo em que traduzia a solidão daquele instante. Eles estão lá, ela cá. Você cá e lá ao mesmo tempo.
Aquilo incomodava, embora não chegasse a doer.
Ela teve o vislumbre de uma criança de cabelos dourados jogando uma bola vermelha para o alto, como se ali residisse a felicidade. Até certo ponto, a inocência se preserva com a ignorância. Então ali ela entendera que tivera incontáveis momentos felizes como o daquela menina, que talvez simplesmente devesse trabalhar para reconstruir a inocência e pureza alheia. Quem sabe assim ela não se reconstruísse também, né?
O vinho lhe chamou. Ela sabia o que isso significava. deitou-se nele enquanto também se embriagava com a bebida. E ali adormeceu na espera do Sol mais reluzente de sua vida.