- Vai garota, coloque novamente tuas dores no bolso e parta.
- Mas eu não deveria dizimá-las?
- Deveria.
- E por que me recomendas fazer justamente o contrário?
- Por que carregas em ti as dores do mundo.
- E o que há de mal nisso?
- Tudo.
- Não entendo.
- O que não entendes?
- O que há de mal em trazer todas as dores do mundo, e se há um mal, o porquê dele ser completo, sem nenhum ponto positivo.
- Você ainda é muito nova.
- E isso não explica muita coisa.
- O que quero dizer é que você ainda é incapaz de entender, de perceber...
- O quê?
- O que há de mal em querer sentir a dor do mundo.
- E além disso, eu sou muito nova para perceber o que também?
- O que é maldade.
- Mas já não é maldade eu sentir toda a dor do mundo? Estou ficando confusa.
- É mal. Não quer dizer que seja maldade.
- O que difere?
- A primeira é ruim pra tu. A segunda é ruim pro todo e é intencional, e o que é mal pra gente dificilmente dá-se por apresentação. Ninguém se apresenta pra sentir dor.
- Não? E os masoquistas?
- Você é danada, hein, garota? Mas, não, é diferente.
- Por que?
- Porque é.
- Isso não responde.
- Mas você é nova, por ora basta.
- Então, recapitulando: você me recomenda dizimar minhas dores, mas também guardá-las no bolso por eu ser incapaz de resolver as mesmas por se tratarem não de dores minhas, mas do mundo, e ainda diz que isso é mal pra mim, pois me machuca, que não escolho isso, e que isso se difere da maldade, da qual eu sou incapaz de perceber por ser muito nova?
- Isso. E você esqueceu da parte da dor não ser voluntária, nem mesmo pra masoquistas.
- E porque não é?
- Masoquistas gostam da dor, de modo que o que procuram quando desejam senti-la não é nada além do prazer puro de sentir dor.
- E eu não me categorizo como masoquista por querer sentir a dor do mundo?
- Não.
- Por que? E não me venha com "porque não"!
- Porque tu sou eu.
- Eu sei. Você sou eu no futuro. E porque não sou, aliás, porque não somos masoquistas?
- Por que não queremos sentir o prazer da dor. Só queremos comportar a dor do mundo para que nosso semelhante não a sinta.
- E o que é ser isso?
- Idealista.
- Como gostamos dos "ista's".
- É um sufixo interessante. Mas assunto pra outra hora.
- Compreendo agora o porque de guardar minha dor.
- Compreende? Sei a resposta por ser você, mas o que você concluiu?
- Que a dor do mundo será sempre minha, e sempre doerá. E que eu querer resolvê-la pode resultar numa incapacidade de senti-la a partir de um ponto.
- Percebe o como isso é complexo?
- Sim. Seria sinônimo de viver sem pensar no próximo. O que significa ter uma vida...
- Só.
- É, como sabe?
- Sou você. Confie que é isso. Não deixe de sentir dor, de sofrer, de chorar e lutar. Faça isso com a maior frequência possível, pois isso talvez signifique mudança.
- Mas mudar dói!
- E dor é bom.
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